ÍNDICE

Capa

Turismo
Passeio Virtual
Como chegar
Monte seu pacote
Dicas de viagem
Reservas online
Guias de Turismo

Fotos 360 Graus
Veja as fotos do Festival

Galeria dos visitantes
A feirinha local
Web Cam diária

Serviços
Hotéis
Restaurantes
Comércio local
Agência na Chapada

Participe
Histórias de viagem
Links sobre a Chapada

Textos sobre a Chapada

Contato
E-mail
Assine nossa newsletter

A ESTRADA "TOPE DE FITA"

Paulo Pitaluga Costa e Silva.

 

Quem busca altos astrais e bons fluídos pêlos caminhos, riachos e cachoeiras de Chapada dos Guimarães, subindo e descendo morros, percorrendo campos e cerrados, buscando grotas e lugares quase que inacessíveis, por certo já foi, ou ao menos, já ouviu falar do Tope de Fita.

Aquele vale apertado, quase um grotão, cercado de elevadas paredes por onde a subida ‚é impossível, com uma vegetação exuberante, escura, úmida e fresca, formando naquele complexo uma atmosfera de paz e tranqüilidade, e principalmente de retorno ao passado.

No fundo do mesmo, ao contrário do que a primeira vista parece, não corre nenhum riacho como costuma acontecer em quase todas as bocainas chapadenses. Apesar da umidade e do frescor, as únicas águas que correm em seu interior são de chuva.

Ao invés de um rio, encontramos em seu fundo uma estrada.

De imediato, quando se está no fundo desse estreito vale, percebe-se nitidamente o leito antigo dessa estrada, com as laterais devidamente escavadas na terra escura, formando altos cortes, e de vez em quando, encontram-se extensos trechos inteiramente calçados por blocos de pedras formando uma superfície mais ou menos uniforme.

As pedras com formatos e tamanhos variados, assentadas principalmente nos trechos de grande declive, com o passar dos tempos, tornaram-se verdes e escorregadios, por causa do musgo e da umidade que por anos as envolveram.

Sente-se a essa visão um estranho retorno ao passado, onde claramente se percebe o esforço de nossos ancestrais, com métodos rudimentares, para levar um pouco do que interpretavam como progresso da antiga Chapada Cuiabana.

Iniciava-se essa estrada às margens do rio Coxipó, na ponte do Rio Aricá, seguindo em direção ao denominado Ribeirão do Médico, garimpo ainda do século XVIII, subindo sempre, pelas íngremes encostas da chamada Bocaina, indo sair no tal Tope de Fita, já nos altos da Chapada.

E de quando seria essa estrada, em que data a mesma fora calçada, quem teve essa visão progressista em tentar minorar as penúrias de uma vigem difícil aos pioneiros de outras épocas ?

Alguns mais sensíveis, sob o efeito de astrais mais esotéricos e luminosos, alegam ser essa uma obra dos Incas, com cerca de 2.000 anos de idade. Chegam ao requinte de dar-lhe até mesmo um nome: Estrada do Sol. Realmente os Incas nos deixaram uma estrada calçada, mas lamentavelmente esqueceram-se de nos legar algumas inscrições nas rochas ou mesmo alguma pirâmide típica peruana para melhor comprovar a sua presença milenar em Mato Grosso.

Outros, com base um pouco mais histórica e em dados mais concretos, dizem que foi uma obra de Mário Corrêa, duas vezes presidente do Estado de Mato Grosso, e que tentou na década de trinta, construir uma cidade administrativa junto à Chapada dos Guimarães, para onde seria transferida futuramente a capital do Estado de Mato Grosso. Com o intuito de lá então melhorar o acesso a essa futura cidade, Mariópolis, teria mandado calçar essa antiga via de acesso a Chapada. Ao menos essa explicação tem um mínimo de alicerce histórico.

Assim a beleza, o encanto, o valor cultural e o momentâneo desconhecimento real de seu passado, e as conseqüentes inúmeras versões de seu histórico, levaram-me a pesquisar a estrada do Tope de Fita.

 

CHAPADA

Chapada dos Guimarães, anteriormente teve o nome de Serra à Cima e Santana de Chapada. Historicamente teve os seus primórdios à partir de uma aldeia indígena mandada fundar em 1751 por D. Antônio Rolim de Moura Tavares, 1º Capitão General de Mato Grosso, cujo aldeamento teve como primeiro administrador o padre Jesuíta Estevão de Castro. Todavia a historiografia mato-grossense é mencionada nos idos de 1727, quando José‚ Barbosa de Sá, em sua RELAÇÃO DAS POVOAÇÕES DO CUIABÁ E MATO GROSSO DESDE SEUS PRINCÍPIOS ATÉ OS TEMPOS PRESENTES, nos diz que o Ouvidor Antônio Alves Lanhas Peixoto "foi para a Chapada em caza do Brigadeiro Antônio de Almeida Lara a caçar Perdizes, e por onde andou lhe que o General se foi para o Povoado". Esse mesmo Antônio de Almeida Lara, nesse ano de 1727 já possuía em Chapada, como contam diversos cronistas, um engenho de cana de açúcar.

Portanto, desde os primeiros anos das minas de Cuiabá, os aventureiros penetraram nestes sertões, já haviam descoberto e realmente freqüentavam Chapada. Quando nada, ao menos para caçar perdizes.

Desde os remotos começos do Século XVIII, que os bandeirantes pioneiros começaram a abrir um sem número de trilhas para atingir o que seria séculos depois a Chapada dos Guimarães.

José de Mesquita em seu trabalho A CHAPADA CUIABANA, nos menciona catorze "caminhos coloniais a procura do plateau promissor". Estendendo-se mais em enunciar esses caminhos primitivos, Mesquita nos conta: "No imenso vão que medeia entre o curso do Coxipó-Mirim, na extrema ocidental e a velha Palmeiras, do outro lado, hoje transformada em colônia correcional, se sucedem sem falarmos de simples desvios ou variantes sem importância, nada menos que catorze escaleiras de acesso ao altiplano, que são: PORTÃO DO INFERNO, que margeia o Coxipó em boa parte, e por onde passa a estrada de automóvel construída pelo governo de Pedro Celestino-Estevão Corrêa; a do QUEBRA GAMELA, que sai do pé do Morro São Jerônimo e vai acabar no Buriti; do CARRETÃO; DO MAGESSE; E DA RUÇA; e da BOCAINA, a mais transitável por ser a mais direta para quem demanda a Chapada, reconstruída em 1910 no governo de Pedro Celestino, pelo engenheiro civil Dr., Virgílio Corrêa Filho; a do XAVIER; E DE MANOEL ANTÔNIO, do ASSENTADO, A DA SERRINHA E A DO CAPITÃO AGOSTINHO, simples carreteira, (as 5 últimas tem o ponto de partida no lugar chamado Catral): a de SANTA TEREZA; a do RANCHÃO, que serve a estrada da linha telegráfica, a de SÃO VICENTE, hoje, ponto de acesso da rodovia para Campo Grande e construída pela atual administração de Júlio Muller: a do CUPIM, que como a anterior vai se entroncar, serra acima, no lugar por nome São José. .Delas todas apenas estão carroçáveis, em toda sua extensão, a do PORTÃO e a de São Vicente, dando as demais acesso à cavaleiros e tropas, muitas vezes penosamente. A serra da Bocaina é a única, exceção das duas referidas, que tem merecido algum cuidado da administração pública, sendo às vezes roçada, na parte superior, em que existem duas matas, a do baú e a do Uatimã é conservada no trecho propriamente da serra, que vai no sopé, é do ponto conhecido como Colônia, fraldando em trechos pitorescos o Ribeirão do Médico até o Tope de Fita.

Por essa interessante descrição de José de Mesquita em trabalho histórico datado de 1940, claramente identifica a origem da estrada do Tope de Fita. Realmente a mesma fora construída em 1910, pelo engenheiro civil Virgílio Corrêa Filho, no primeiro governo de Pedro Celestino, pondo-se assim ao lado de uma estrada Inca ou uma possível obra de Mário Corrêa.

PEDRO CELESTINO DA COSTA


Após uma nada gloriosa revolução, em que os vitoriosos covardemente assassinaram o então Presidente do Estado Antônio Paes de Barros, assenhorearam-se do poder político do mato-grossense Generoso Ponce e seus correligionários no ano de 1907.

Ponce elegeu-se Presidente do Estado, tendo como Vice Pedro Celestino Corrêa da Costa, o qual, assumiu em 12 de outubro de 1908, com um afastamento do titular para disputar uma vaga no Senado Federal.

Pedro Celestino, apelidado de "saca rolha" em virtude de sua estranha e difícil maneira de cruzar as pernas, dotado de um senso de organização de extrema competência administrativa, e sobretudo distante de Ponce, e livre , portanto, da politicagem que imperara nos últimos 14 meses de governo do chefe revolucionário, conseguiu realizar uma das melhores administrações públicas na chamada República Velha.

Saneou verdadeiramente as finanças do Estado, pagando contas e normalizando a situação do funcionalismo público. Reorganizou toda a instrução pública, trazendo para Mato Grosso os professores Leovegildo de Mello e Gustavo Kuhllman, que por anos pontificaram no ensino desta terra. Reformou o Palácio da Instrução que abrigaria o Liceu Cuiabano e a Escola Normal. Iniciou limpeza e dragagem do Rio Cuiabá, para melhorar sua navegação. Tentou sanear a capital, iniciando fazer um sistema de captação de águas do Coxipó e uma rede de esgoto. Em especial, e é o que nos interessa, contratou os serviços do Dr. Virgílio Corrêa Filho, para a construção da estrada Cuiabá-Chapada, passando pela bocaina e pelo Tope de Fita.

VIRGÍLIO CORRÊA FILHO


Sem dúvida o maior historiador mato-grossense, tendo escrito nada menos que 109 títulos acerca de nossa historiografia regional. Formado em engenharia pela Escola Politécnica do Rio de Janeiro, conseguiu seu primeiro emprego na Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, e em seguida na Estrada de Ferro Central do Brasil, onde trabalhava quando recebeu o convite para retornar para Cuiabá e colaborar na administração de Pedro Celestino.

O então Presidente do Estado, unido ao pai de Virgílio Corrêa Filho por laços de profunda amizade e lideres político-partidários, deixou-o que escolhesse dentre várias obras que pretendia incrementar em seu governo: Diretoria da Repartição de Terras, a Diretoria de Obras Públicas, o serviço do abastecimento de águas de Cuiabá, e a estrada de Chapada.

Pedro Celestino, no instante, confidenciou-lhe assim tal incumbência , antes mesmo da escolha do engenheiro.

Assim, em 12 de julho de 1910, com um salário de 800$000 mensais, mais uma ajuda de custo de 1.000$000 como reembolso pela viagem do Rio de Janeiro a Cuiabá, Virgílio Corrêa Filho foi contratado como engenheiro chefe da construção da estrada de Chapada.

Escolhida a obra, Virgílio Corrêa Filho, para melhor conhecer a região que iria trabalhar, efetuou viagem juntamente com o Presidente do Estado para o Rio da Casca. A viagem de Pedro Celestino ao Rio da Casca não é bem explicada, mas talvez sua visão de estadista e hábil político, já estaria antevendo o aproveitamento, hídrico desse rio para uma futura, e aquela época impossível tecnicamente, construção de uma hidrelétrica.

Nessa viagem, pode o jovem engenheiro conhecer bem a fundo a região de Chapada, e lá mesmo fixou a sua preferência para levar adiante o projeto da estrada pela passagem no Tope de Fita, pelo primitivo caminho que demandava ao velho engenho do Buriti.

Aprovado o traçado, que seria realmente a construção nova sobre o leito da antiga estrada carroçável colocou o governo do Estado disposição do construtor, um contingente policial, comandado por um cabo, que imediatamente montou acampamento no local perto do Ribeirão do Médico.

Em seguida, Virgílio Corrêa iniciou a contratação de trabalhadores e equipamentos destinados à obra, tais como, carroças, animais de carga, burros, bois e cavalos, ferramentas mais variadas, e material para acomodação e subsistência para seus homens.

Consegui a contratação do Senhor Landislau de Lima, já com muita experiência em terraplanagem junto a estrada de Ferro Noroeste do Brasil, e ainda Antônio Leite de Barros, que diretamente orientado pelo engenheiro chefe, efetuava os serviços topográficos para levantamento da estrada.

Montou ainda em Cuiabá escritório para apoio administrativo, para controles das despesas financeiras.

A estrada iniciava propriamente às margens do Coxipó, após a ponte do Aricá, percorrendo o cerradão, cortando campos e córregos até‚ o ribeirão do Médico, de onde se começava a subir pelo corte da Bocaina, a cerca de meia légua desse ribeirão. Até este ponto, em terreno bem acidentado, tudo corria bem e sem maiores dificuldades técnicas. Porém ao deparar com a subida, iniciaram-se problemas maiores, em especial com a necessidade de grandes cortes que se fizeram a fim de suavizar a rampa em aclive. Assim mesmo, nos trechos íngremes havia a necessidade de se efetuar um difícil, penoso e demorado calçamento desses imensos trechos. Uma incrível dificuldade diariamente inspecionada pelo engenheiro, em se escolher e assentar aquelas pedras todas de variáveis tamanhos e espessuras, pôr caminhos difíceis e quase inacessíveis. Um trabalho brutal, que somente uma vontade férrea poderia suplantar.

Virgílio Corrêa, inquebrantável em seu esforço, aproveitava geralmente as noites para percorrer 3 léguas para atender e inspecionar duas frentes de trabalho que abrira, numa vigília constante, para apoio de seus trabalhadores e verificação das obras.

Entretanto, os gastos estavam muito, as despesas para cumprir rigorosamente o projeto inicial já eram enormes. Pôr absoluta falta de recursos financeiros, e com a necessidade de se atender várias outras obras públicas, o Presidente Pedro Celestino resolveu cortar as despesas de tal projeto. Acertou que para baratear custos, ao invés de se seguir o projeto inicial elaborado tecnicamente pôr Virgílio Corrêa, a estrada seguiria o seu leito secular. Assim, se continuaria fazendo basicamente o calçamento, com pouca movimentação de terra, em especial na parte mais acidentada e quase já no Tope de Fita. E assim foi feito.

Todavia, Virgílio Corrêa, inconformado com a transformação de seu projeto técnico original em mero conserto e calçamento da antiga e secular estrada, solicitou a sua dispensa como engenheiro do Estado. Pedro Celestino negou o pedido, mas o transferiu para uma outra comissão, o estudo do Rio Cuiabá no trecho compreendido entre as cidades de Cuiabá e Rosário. Tendo iniciado essa nova atividade, chegou a realizar viagens de inspeção e estudo, todavia, em pouco tempo solicitou novamente sua demissão, e após, retornou ao Rio de Janeiro.

Mas a estrada continuou, Ladislau Lima a Antônio Leite Barros a conduziram até o fim, chegando aos altos da Chapada pelo Tope de Fita, daí serpenteando pêlos campos elevados até a pequena vila.

Os cortes foram realmente poucos, o que ensejou uma estrada íngreme e de difícil tráfego, se bem que devidamente calçada nos trechos de meio aclive.

Já no início da década de 70, os moradores de Chapada, tentaram demonstrar ao então Governador José Fragelli, a viabilidade de se construir o acesso permanente pelo local da Bocaina-Tope de Fita, que ligaria Cuiabá com esse município com menos de 40 Km, ao invés do traçado pretendido, hoje já asfaltado, com quase 70 Km.

Uma comitiva saindo dos altos da Chapada, com vários Jipes, Rural Willys, e até caminhões num total de 14 veículos, efetuou a duras penas a descida do Tope de Fita e chegou até Cuiabá. Todavia pôr motivos inexplicáveis, apesar da cabal demonstração da viabilidade do tráfego, a respeito do abandono em que se encontrava a antiga estrada, não foi conseguido o intento dos chapadenses.

Mas lá está até hoje o antigo e secular caminho. Ainda usada como estrada boiadeira, com seus imensos cortes, suas subidas íngremes, com seu impressionante calçamento de pedras eternamente sombreada pôr vegetação exuberante, fruto do esforço e da capacidade de um homem, Dr. Virgílio Corrêa Filho, que além de seus livros, sua história, seus estudos, sua imensa obra cultural, legou-nos também a estrada Tope de Fita.

PAULO PITALUGA COSTA E SILVA (Membro do IHGMT, escrito pôr ocasião da solicitação de tombamento da referida estrada solicitada pôr Luiz Philippe Pereira Leite)